Dormindo com Meus Demónios
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“Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...”
Mario Quintana
Acostumamos a convidar os nossos piores fantasmas para dormir connosco, mas depois
não conseguimos lidar com o peso da sua presença. A inquietação a que nos submetem
não é, de todo, suportável se não estamos dispostos a dialogar com eles.
É nesse estado de vigília, território instável entre o visível e o indizível, que nascem as
imagens que compõem esta proposta expositiva de Vinícius Lopes. Representações que
deixam de ser apenas imagens para se tornarem experiências sensoriais e inquietantes da
ambiguidade e a densidade dos nossos mais profundos pensamentos. Presenças ambíguas
que parecem revoltar-se das profundezas da tela para atingir o nosso lúcido olhar e, talvez,
o nosso confuso inconsciente.
A impressão de algo que nos observa pelas costas é partilhada com aqueles que, desde as
telas, se recusam à sua identificação. Mas esta vontade de indefinição não penso que seja
a expressão de um vazio, mas uma estratégia para negar uma identidade estável, imóvel e
sólida. Um estado de metamorfose onde a pintura se precipita no abismo das
interrogações... Quem são essas figuras? Ou melhor, o que são? Saberão elas da
inquietação que nos produz, precisamente, a impossibilidade de dar resposta a estas
perguntas?
Assim, nessa frontal interlocução com os nossos demónios, a tradicional ideia de “monstro”
torna-se problemática, pois podemos começar a questionar se essas entidades que nos
assombram não serão, elas próprias, formas assombradas que na impossibilidade da sua
definição dissolvem-se, na pintura, mediante gestos muito pouco explícitos criando um
campo de tensão onde o visível nunca pode ser afixado por completo e a cada olhar surge
uma nova possibilidade de leitura e novos medos.
Esse jogo entre ocultação e revelação articula-se com uma dimensão mais ampla e
constante na prática pictórica do artista: o exercício contínuo da mimese. Como recurso
tradicionalmente associado à imitação da natureza ou da realidade, a mimese aqui é
tensionada até ao seu limite para explorar o ato de representação como um mecanismo de
aproximação e, simultaneamente, de fuga. A cópia, a imitação, a sugestão e a intuição
tornam-se formas de simpatizar com a humanidade, mas também atitudes de lidar com
aquilo que não é humano: aqueles demónios que convidamos para dormir connosco e que
não queremos expulsar, mas sim transformar em agências com entidade e direito de
afirmação para a criação de um espaço de negociação entre estados de consciência, luzes
e sombras.
Neles, nos nossos demónios, sentimos uma espécie de cansaço ontológico, como se
existissem sob o peso de múltiplas camadas de tempo... ou de tinta. Não nos oferecem
conforto; mas, ao mesmo tempo, a sua presença é incontornável e intensifica e justifica a
essência da nossa própria existência que, como a pintura, jamais será um objeto passivo
mas sim um campo ativo de forças.
Talvez esses fantasmas não possam ser definidos como monstros ou demónios. Talvez
sejam restos das nossas memórias e vivências. Ou talvez ecos… Ou aquilo que ficou
quando já não havia forma suficiente para sustentar uma identidade.
Ou até, talvez, esses monstros estejam muito próximos de nós próprios e, como escreve a
poeta e ativista Eliana Potiguara: a mulher que ouve a sua intuição, que percebe os seus
sonhos, que ouve a voz interior das velhas e das mulheres guerreiras da sua ancestralidade
e que possui o olhar suspeito dos desconfiados, essa sim, é uma ameaça ao predador
natural da história e da cultura.
Serão estes aqueles seres que costumamos convidar para dormir connosco? Se assim
fosse, esses monstros ... somos apenas nós.
VINICIUS LOPES
Vinicius Lopes (1993) nasceu em Tabocas do Brejo Velho, Bahia. Atualmente vive e trabalha no Porto, Portugal. Suas pinturas investigam as potencialidades estéticas e estruturais da produção de imagens e como elas estão implicitamente envolvidas nos processos culturais e na maneira como os eventos são documentados e compreendidos coletivamente.
Recentemente, o artista participou da Punch, Galeria Plato, Porto, PT, com curadoria de Diogo Ramalho. Participou também da SP-Arte Rotas 2025, pela Galeria Luis Maluf, em São Paulo, Brasil, com curadoria de Rodrigo Moura. Esteve na Bienal de Cerveira 2024, organizada pela Fundação Bienal de Arte de Cerveira, em Vila Nova de Cerveira, Portugal, com curadoria de Helena Mendes Pereira.
O artista também participou da 20ª SP-Arte, no Pavilhão da Bienal – Pavilhão Ciccillo Matarazzo, em São Paulo, Brasil, representado pela Galeria Luis Maluf. Na mesma galeria, integrou a exposição “Usina”, com curadoria de Agnaldo Farias e Priscyla Gomes. Em 2023, apresentou trabalhos na exposição “Primeira”, na Galeria Interior, em Viseu, com curadoria de Teresa Arêde.
No Porto, realizou duas exposições individuais: “No Outro Dia”, no projeto Mármol, com curadoria de Matias Romano, e “Descançaço”, na Okna Gallery, com curadoria de Radu Sciliar. Além disso, participou da mostra coletiva “Visibilidade e Cegueira”, no Atelier Galeria FFAC, com curadoria de Tales Frey.

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